TÊNIS,
O SAPATO
UNIVERSAL

Winnie Bastian
Fotos Fernando Perelmutter


Artigo esportivo ou acessório fashion? Ambos. O tênis para esportes deixou de ser usado apenas nas quadras e academias para ganhar espaço nas ruas – com muito estilo


O tênis nasceu no século XIX, precisamente em 1832, quando uma indústria norte-americana patenteou um método para fixar solas de borracha a sapatos e botas. Durante muito tempo não houve mudanças significativas, até que, em 1971, o técnico norte-americano Bill Bowerman, um dos fundadores da Nike, teve um "insight" e preencheu uma fôrma de waffle com borracha líquida: surgia uma sola mais leve. Outra revolução aconteceu em 1979, quando chegou ao mercado o sistema de amortecimento Air, da Nike, criado pelo engenheiro espacial Frank Rudy. Desde então, a inovação tecnológica tem sido perseguida pelas indústrias do setor. Hoje os tênis modernos incorporam as mais avançadas tecnologias e materiais, apresentando elaborados sistemas de amortecimento e impulso que contribuem para melhorar o desempenho de atletas, profissionais ou bissextos.

Mas o que levou o tênis esportivo, antes confinado a quadras e academias, para as ruas? Talvez uma greve do metrô de N. York, ocorrida em 1980, quando milhares de mulheres saíram para trabalhar de tailleur e tênis. Ou terá sido febre da aeróbica responsável pela "ascensão urbana" do tênis?

A busca pelo corpo perfeito levou milhões às academias, transformando o sportswear em estilo de vida. O tênis passou a ser objeto de desejo a partir do final da década de 1980, quando as grandes empresas firmaram acordo com atletas famosos, elevando-os à condição de ícones da moda. O contrato de Michael Jordan com a Nike, firmado em 1985, foi um dos primeiros, e marcou época.
Desde então, o mesmo tênis utilizado por atletas profissionais é calçado por todos, seja pela influência dos ídolos do esporte, pela intenção de transmitir uma imagem jovem e moderna ou pela vontade de usar um calçado mais confortável no dia-a-dia – desejo óbvio, uma vez que o homem caminha cerca de 3 mil quilômetros por ano!
A difusão do tênis esportivo fez com que o design se aprimorasse. Os modelos "desengonçados" de outros tempos evoluíram e ganharam estilo: seguem de perto as tendências da moda mundial. Após ganhar as ruas, o tênis partiu para as passarelas. É cada vez mais frequente a parceria entre as indústrias líderes e designers – como Yohji Yamamoto e Marcelo Sommer – na criação de modelos "fashion".

Mas no caso dos tênis destinados à prática de esportes, não basta seguir a moda: a aparência de cada modelo precisa expressar toda a tecnologia nele contida. Hoje, a escolha de um tênis é prova de conhecimento, e a sofisticação é tanta que os vendedores têm de frequentar cursos específicos com os fabricantes sobre novos materiais utilizados para poder satisfazer à "sede tecnológica" dos consumidores.
Muito mais evoluídos que seus ancestrais – os sapatos para críquete, criados em 1860, tinham sola de borracha e parte superior em lona com amarração –, os tênis contemporâneos atingiram tal complexidade construtiva que um par pode ser formado por até 200 peças e levar até três anos para chegar ao mercado. Há casos em que esse prazo é ainda maior: o Shox, lançamento recente da Nike, exigiu 16 anos de desenvolvimento!
A extrema especialização dos sapatos esportivos atuais também chama a atenção. A tendência de produzir calçados específicos para cada modalidade de esporte surgiu em 1925, quando Adi Dassler, fundador da Adidas, construiu tênis diferentes para cada distância de corrida. Mas apenas há poucos anos esta especialização se tornou mais evidente. "Novas máquinas capazes de fazer materiais mais delicados e resistentes e recortes minimalistas intensificaram esse processo", explica Ana Rita Fernandes, gerente de produto da Adidas.

Se no início do século XX os jogadores de futebol americano e de beisebol usavam praticamente o mesmo sapato, hoje as necessidades dos atletas têm merecido estudos intensos e minuciosos, que resultam em calçados altamente especializados. O tênis para o salto em altura sem vara, por exemplo, tem um pé diferente do outro, pois o atleta necessita de diferentes respostas de cada pé em função do movimento que realiza.
Enquanto isso, incorporamos ao nosso cotidiano toda a tecnologia desenvolvida para a prática de esportes, transformando o tênis – efêmero e coloridíssimo – num mito urbano. Hoje, cerca de 90% das compras de tênis não são feitas para a prática esportiva à qual o calçado se destina.