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DESIGN EM
NEW YORK
Maria Helena Estrada
Uma
garimpagem em busca do novo design em N. York revela, além de
novos produtos, a mudança de gosto e comportamento da sociedade
norte-amenricana. Onde estaria a raiz dessa transformação?
A
International Comtemporary Furniture Fair (ICFF) foi uma oportunidade
para vermos não apenas o design, mas a teoria que precede o projeto
e o processo, da idéia ao produto. Não apenas design norte-amenricano,
também a casa italiana, conceito que vai além da fronteira
do design.
Um
Soho tendendo à sofisticação burguesa, de onde as galerias de arte estão
sumindo, hospeda o quadrilátero do luxo do design - principalmente
as grandes marcas internacionais e lojas norte-americanas famosas, como
a Moss Gallery. Na cidade, um grande show de design se repete a cada
ano: é a ICFF que abriga algumas empresas famosas - Herman Miller,
ICF, Heller, Pure Desi gn,
Umbra - e outras ainda balbuciantes, ao lado de empresas
internacionais e de um
comparecimento
maciço do onipresente design italiano.A
ICFF vem se firmando no panorama internacional há pouco mais de 10 anos.
Lá estava o VIA francês e uma retrospectiva holandesa, incluindo a Droog
Design. Mas o que nos interessava era o novo design americano - entenda-se,
dos EUA. Lupa na mão, fomos garimpar, curiosos: feira, lojas, galerias
e museus. O design americano para a casa começa a rece ber
estímulo e prestígio, embora sua tradição esteja mais ligada aos sofisticados
objetos tecnológicos do que aos aspectos puramente estéticos do habitar.
Algumas exposições, no entanto, nos chamaram a atenção pela proposta
inovadora quanto à forma de mostrar o projeto e/ou o produto. Process
(Taba Gallery, 116 West Houston Str.), uma das mais curiosas mostras
na cidade, é uma prova do crescente interesse pela cultura material.
Exposição sobre a "progressão linear (ou nem tanto) do design", explicam
seus curadores, tornava transparente como des Municipal
Art So ciety
(www.mas. igners
e produtores chegam à etapa final do projeto. Não se colocava o foco
apenas no produto, mas em seu processo de desenvolvimento, desde um
rabisco no guardanapo ou o briefing preciso de um cliente.As diversas
etapas do desenvolvimento -
desenho, modelagem, prototipagem, testes de resistência e outros - estavam
explicadas com a clareza que não se encontra em uma habitual exposição
de design. Faziam parte da mostra Ayse Birsel, Alexander Gelman, John
Maeda, Marc Newson, Philippe Starck e o Pratt Institute. Alguns com
projetos de design gráfico e web design, outros com design de produto
- como Birsel (escritório para a Herman Miller), Marc Newson (bicicleta
para a Biomega), Starck (cadeira para a Emeco). "Process" é uma das
primeiras manifestações organizadas pelo futuro Design Center of New
York, uma iniciativa da org) - juntamente com
alguns profissionais do universo do design - que visa dotar a cidade
de um centro dinâmico, aberto, para estudos, novas propostas, mostras
e documentação. A mais abrangente das exposições, uma resenha do design
americano dos últimos três anos, estava exposta no National Design Museum
do Cooper Hewitt Institute. A mostra "Design Culture Now", com curadoria
de Steven Skod Holt - "design visionary" no grupo Frog, de São Francisco
-, além de Donald Albrecht e Ellen Lupton, apresentava uma seleção de
projetos em arquitetura e meio ambiente; design gráfico, tipografia
e novas mídias; e produtos. A exposição
se dividia em oito seções, de acordo com as principais características
que, segundo os curadores, direcionam o design contemporâneo nos Estados
Unidos, como a fluidez (objetos contemporâneos são "femininos", com
formas orgânicas e interfaces fluidas), a narração (são projetos que
contam uma história) e a surpresa (peças que exploram as fronteiras
da imaginação). Enquanto pensávamos no cenário do design americano,
em como estão "brotando" a cada esquina as lojas, bares, hotéis "design",
coincidiu de lermos dois artigos, um na revista francesa "Le Nouvel
Observateur" ("Les Nouveaux Bourgeois", de 4 de maio último), e outro
no suplemento Mais, do jornal "Folha de S. Paulo" ("Os Boêmios Burgueses",
Fabiano Maisonnave, 11 de junho de 2000, em entrevista com David Brooks,
autor do livro "Bobos in Paradise"), que identifica uma nova categoria
social, os "bobos", que não são bobos, mas "bohemian bourgeois". Em
seus hábitos encontramos sintomas que poderiam explicar o "fenômeno
design". Uma interpretação que vai além da razão óbvia: em uma sociedade
industrializada tudo, todos os objetos que compõem nossa cultura material
nascem de um projeto, ou design. Os dois artigos, mudando-se as conotações
relativas a cada país (EUA e França), falam de um novo perfil de consumidor
(além de analisar, sob essa ótica de leitura, política e economia
americanas), formado por aquele jovem contestador da década de 1960
que hoje alcançou uma situação financeira estável e uma razoável cultura
geral. O "bobo" se declara antes de tudo não-burguês e, na verdade,
rejeita o comportamento
da burguesia tradicional, fazendo valer sua origem boêmia de ex-"outsider".
O novo burguês, na França, é o profissional liberal, culto e refinado.
Nos EUA, é o diplomado pelas melhores universidades, às quais passaram
a ter acesso no momento em que estas começaram a aceitar alunos baseando-se
mais no cérebro do que na ascendência. O "bobo" não se vê como consumista:
jamais compraria um carro de luxo, mas está disposto a pagar igual quantia
por um utilitário ("não gasto em supérfluos, só compro o que é útil")
ou, dependendo do caso, pelo New Beetle ou o Smart Car, símbolos de
sofisticação e despojamento; do mesmo modo que consome aquela safra
especial de um bom vinho ou o patê de uma determinada região da França
- e pode gastar um bom dinheiro nesses detalhes - el e
escolhe o Swatch Skin ou o "rústico e verdadeiro", como o sapato do
camponês da Espanha, fabricado em Palma de Mallorca e vendido na mais
nova loja do Soho (Camper, projeto Constantin Boym). É este o consumidor
que compra objetos de design. Na sala, suas cadeiras são de plástico,
mas criadas por Philippe Starck; seu abridor de garrafas tem desenho
italiano; sua chaise-longue Le Corbusier é legítima, não uma cópia.
Na semana do design em N. York, essa realidade transparece, sugerindo
uma das razões da invasão do design italiano no mercado americano .
"Exercises in Style" representou a metáfora desse novo modo de vida.
Exposição institucional organizada pela Ferderlegno-Arredo, Itália,
(Galeria ACE), a mostra era o abre-alas, o belo e culto cartão de visitas
para a grande operação de imagem das empresas italianas "design oriented"
no mercado americano. Organizada pelo estúdio Cerri, Milão, a mostra
se dividia em diversos espaços conceituais, simbolizando os ambientes
de uma casa - a casa italiana. Esta
é a imagem que a indústria italiana tem comunicado: algo além de uma
etiqueta "made in Italy" ou "designed in Italy", mas o modo de vida
à italiana, que subentende um grau máximo de edonismo e cultura, universo
do qual o design é parte essencial. É nesse cenário de sofisticado consumismo
que desabrocha o design americano e a casa do futuro: sem poltronas
estampadas com flores, sem cadillacs na porta. Na feira, não existe
uma hegemonia quanto à qualidade do projeto. Dentre os produtos que
melhor representam o estágio de desenvolvimento da produção americana
para a casa, destacamos alguns: As mesas Luna de Paul Epp, e os estofados
de Karim Rashid, para a Umbra; Laurene e Constantin Boym, para a Pure
Design, com a estante Less is More; Blank & Cables, San Francisco, com
móveis metálicos de gosto duvidoso, como a Camel Chair, ou as práticas
Ladder Boxes. Mas se toda cidade deve ter uma estrela, N. York encontrou
a sua: Karim Rashid. Nascido no Egito, estudou na Inglaterra e no Canadá,
especializou-se na Itália, nos estúdios de Sottsass e Bonetto, vive
hoje em N. York , tendo também trabalhado no estúdio Pesce. "Meus projetos",
declara Rashid, "quere m
exprimir o espírito do tempo, mas o que me interessa é a capacidade
de operar neles uma transfusão de vida". Rashid é doce e nostálgico
nas formas, mas pura tecnologia na concepção e no desenvolvimento de
seus projetos, muitos dos quais já mereceram atenção da crítica, como
as sacolas em plástico para Issey Miyake e o mobiliário na coleção Umbra.
Vindo do mundo da moda, o trabalho de Rashid é ágil, de leitura imediata.
Suas curvas são sensuais, seu desenho é de grande limpeza gráfica. Na
exposição deste ano, com uma grande festa em um galpão do Soho, Rashid
apresentou estofados, mesas, luminárias e tapetes. O grande sucesso
era a mesa com o tampo recoberto com um novo material, um filme, que
imprimia a marca das mãos, quando tocada ,
pela ação do calor. Finalmente, aquele que anunciou deixar de desenhar
no ano 2000: Phillippe Starck. Em sua cadeira para Emeco, empresa do
ICF Group, Starck abandona o plástico e se exercita em outra matéria
- o alumínio. A Emeco, o maior produtor das tradicionais cadeiras americanas
em alumínio, moderniza sua imagem e ganha um "up grade" em projeto e,
sobretudo, em marketing, com o desenho de Starck. Do ponto de vista
formal, a Hudson Chair não difere das outras cadeiras que Starck tem
criado para a Kartell e a Driade, na Itália. O projeto, no entanto,
é a reafirmação definitiva de que hoje, no design, o discurso e o projeto
são fundados na escolha da matéria-prima. É ela que está direcionando
a inovação e configurando a paisagem material do início do novo século.
Sites
Blank & Cables - www.blankandcables.com
ExposiçãoProcess - www.processnyc.com
ICF Group - www.icfgroup.com ICFF - www.icff.com
Joey Manic - www.joeymanic.com
Totem Design Group - www.totemdesign.com
Umbra - www.umbra.com
Cooper-Hewitt, National Design Museum - www.si.edu/ndm
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