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AS APARÊNCIAS ENGANAM
As 1001 novidades do Salão do Móvel
Maria Helena Estrada
UInovação e qualidade, este o binômio sobre o qual se baseia o projeto de cada bom produto. Mas como exercer essa necessária inovação se as formas já estão cansadas? Qual o elemento propulsor que, hoje, anima o design?
A homogeneidade dos produtos, a mesma cara é comentário geral que vemos em todas as cadeiras, estofados, mesas, a cada novo ano, parece esconder o melhor do design no Salão do Móvel 2000. Mas que novidades são essas, difíceis de serem percebidas nos 460 mil metros quadrados do Salão e em outros tantos quilômetros de exposições paralelas?
Um dos segredos não mais secreto reside nos materiais e nas tecnologias empregadas em diversos produtos apresentados pelas empresas líderes do mercado e nas pesquisas de alguns designers solitários.
Para não deixar dúvidas de que a inovação na matéria-prima e na tecnologia é, hoje, tema central no design, logo à entrada do pavilhão institucional que abriga a vertente cultural da Feira o Salão Satélite estava a mostra iMade, apresentando dois aspectos de uma mesma questão: materiais e idéias para o futuro, exposição organizada pela Material Connexion, N.Y. (veja ARC DESIGN n° 12); a inovação material na indústria italiana da decoração.
Design e inovação são as chaves do sucesso, segundo Rodrigo Rodriquez, presidente da Federlegno-Arredo, federação responsável pela organização da mostra. Queremos ser não apenas fabricantes de produtos, mas gestores de um valor real.
Este ano, além da Itália, alguns países como França, Bélgica, Inglaterra e Finlândia confirmaram, com bons exemplos, que também estão atentos às questões contemporâneas e à qualidade no design.
A grande tendência? A liberdade. Formas, cores, materiais, modos de ser, de dormir, comer, sentar, de criar o próprio ambiente, se multiplicam em propostas mais ou menos originais. Não existe a cor da moda como o cinza fim de século do penúltimo Salão; minimalismo e explosão barroca são vistos com o mesmo olhar curioso; proporções reduzidas no mobiliário para pequenos espaços habitativos, e o over-size do mobiliário contract convivem em harmonia; a extravagância volta a ser aceita como um possível sinal, ou caminho, que não escapa à observação das grandes empresas. O móvel, hoje, é como o hábito que faz o monge: diga-me em qual cadeira te sentas e te direi quem és.
De modo geral, podemos observar que a tipologia dos estofados retoma a ausência de códigos dos anos de 1960 a 1970 e, desprezando a rigidez da postura e do maciço retângulo, procura intuir um kama-sutra solitário nas inúmeras posições do relax, de Binfarè (Edra) a Zaha Haddid (Sawaya & Moroni); as cadeiras se transformam no cenário ideal para que designers e pesquisadores possam levar avante a aventura fascinante dos novos materiais (Azambourg, VIA, França), Ainsslinger (Zanotta), Lovegrove (Edra); as mesas, resistentes, per forza, às grandes inovações formais, passam a ter sua superfície eletrificada, como a Broadway (Snowcrash, Finlândia), permitindo ligação automática com a Internet e computadores, que funcionam apenas pelo contato com o tampo.
Zanotta, Edra e Cappellini se destacaram, dentre as empresas italianas, por apostarem na inovação: a primeira, pela chaise-longue Soft, de Werner Aisslinger em TechnoGel (veja ARC DESIGN n° 9); a Edra, pela pesquisa de novas texturas, cores e materiais, que desenvolve há alguns anos, guiada pelo seu diretor de arte, o designer Massimo Morozzi que estará no Brasil no próximo mês de junho, a convite da Firma Casa; a Cappellini, pelo belo espetáculo de formas e cores no generoso espaço de um galpão, no qual apresentou uma seleção de sua linha, recriada em novos coloridos, reintroduzindo materiais em desuso, como na cadeira Rainbow Chair já beirando o kitsch, é verdade, mas muito bela em acrílico transparente, com listras em tons vibrantes.
Este ano, a Kartell, além de inaugurar seu museu, que é a própria história do desenvolvimento dos materiais plásticos, se dedicou à exploração da cor e de novos materiais de acabamento, reeditando alguns modelos de sua coleção.
De novo a cor. Seria um alegre prenúncio do novo milênio?
Além da necessária inovação no design da matéria e do produto , a indústria italiana manifesta crescente importância a uma questão mais abrangente. Como agregar valor, e difundir esse valor, não apenas ao produto isolado mas à solução espacial, ao design de interiores?
Um aspecto que chama a atenção na mostra sobre a tecnologia italiana é seu próprio título: Linnovazione materiale nell´industria italiana dell´arredamento (a inovação da matéria na indústria italiana da decoração), que subverte a relação entre o design e a decoração. E esta postura talvez seja a mais nova das mil e uma novidades deste ano, em Milão.
No Brasil a tradução exata para arredamento não existe, a decoração nasceu e floresceu filiada à vertente decorativista francesa (décoration), e não à italiana, na qual decorar é sinônimo de enfeitar.
Os profissionais brasileiros, no entanto, acabam de mudar o próprio nome de sua associação, abandonando a designação decoradores a favor de designers de interiores. Neste ponto, Brasil e Itália se encontram, com o mesmo interesse pela visão do móvel, do objeto, dos equipamentos, em seu contexto, traduzindo uma forma contemporânea de viver, distanciando-se dos velhos ambientes carregados e impessoais, sem normas ou razão.
Na Itália, os setores ligados ao arredamento também deslocaram seu foco. Design não é única a forma de agregar valor a um produto. A questão tornou-se mais ampla e diz respeito à qualidade intrínseca do habitar, do viver.
Em 1933, o arquiteto Giò Ponti já se referia à casa italiana, como se lê em artigo publicado no jornal Il Sole 24 Ore, de 10 de abril, como sendo portadora de um desenho que não descende apenas das exigências materiais do viver, ela não é apenas uma máquina para habitar, como anunciava Le Corbusier. Nascia o conceito do estilo de vida, da casa à italiana.
Exposições realizadas nesta edição do Salão do Móvel, como Stanze e Segreti, com instalações criadas por Peter Greenway, Bob Wilson, Kusturica, Yoko Ono, entre outros, na Rotonda della Besana; Essere Ben/essere, na Trienal de Milão, com projeto de Mendini e 26 salas projetadas por Branzi, Starck, Santachiara, Italo Lupi e outros, mostravam cenografias e ambientes metafóricos, traduzindo um estado de espírito, uma sensação, um modo de vida designed in Italy. i
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